Mitos sobre a Gaguez

quarta-feira, 14 de novembro de 2012 0 comentários
Há muitos mitos e preconceitos aliados a esta perturbação da fluência da fala, e como um dos objetivos do nosso projeto, pretendemos desmistificá-los.


1.     Mito: A Gaguez é um hábito adquirido. 

Realidade: Afirmar que a Gaguez é um hábito significa que a pessoa começaria a gaguejar voluntariamente e, com a prática, a Gaguez se tornaria automática. Não é isso o que acontece. A Gaguez é um distúrbio neurobiológico causado provavelmente pelo mau funcionamento de áreas do cérebro responsáveis pela automatização da fala: os núcleos da base não conseguem ajustar adequadamente o tempo de duração de sons e sílabas, ocasionando prolongamentos, bloqueios ou repetições. Esta disfunção é o resultado de uma predisposição genética ou de uma alteração na estrutura do próprio cérebro. Portanto, a Gaguez não pode ser simplesmente aprendida por imitação, porque ocorre em pessoas que, de alguma forma, estão propensas a ela.

2. Mito: Se eu não gaguejo em algumas situações (por exemplo: cantar, ler em coro, falar com outro sotaque, representar um personagem, sussurrar), é sinal de que posso ser fluente em todas as situações. Se não consigo ser sempre fluente, a culpa é minha. 

Realidade: Dependendo do contexto, a fala é processada por diferentes partes do cérebro. As variações situacionais da Gaguez - embora possam soar indevidamente como um problema emocional ou de ansiedade social - refletem apenas diferenças no modo como o cérebro processa a fala de acordo com a circunstância, usando um de dois sistemas pré-motores para fazer a temporalização do movimento: o sistema pré-motor medial ou o sistema pré-motor lateral. Na Gaguez, o sistema pré-motor medial, responsável pela fala espontânea e integrado pelos núcleos da base, é o que tende a estar comprometido. Por outro lado, o sistema pré-motor lateral, responsável pela fala não-espontânea (como falar sozinho, cantar, ler em coro, representar um personagem e sussurrar) e integrado pelo cerebelo, tende a estar íntegro. Assim, a melhoria da Gaguez em situações que não envolvem fala espontânea é esperada e não significa que possa ser transferida para a fala espontânea, uma vez que são processamentos distintos.

3. Mito: Pessoas com Gaguez nunca gaguejam quando cantam ou quando representam uma personagem no teatro. 

Realidade: A maior parte das pessoas com Gaguez realmente não gagueja quando canta. Entretanto, algumas pessoas com Gaguez podem enfrentar dificuldades para iniciar o canto, outras podem gaguejar apenas quando cantam músicas de ritmo quase falado (como o rap, por exemplo) e outras ainda podem gaguejar no canto da mesma forma que gaguejam quando falam. Da mesma forma, boa parte das pessoas com Gaguez não gagueja quando representa uma personagem no teatro. A explicação para a ausência da Gaguez durante o canto ou a representação de um personagem está em como o cérebro processa estas formas de expressão verbal: ambas tendem a ser processadas pelo sistema pré-motor lateral, que tende a estar preservado nas pessoas que gaguejam. Quando a Gaguez ocorre durante o canto ou durante a representação de personagens, significa que o processamento não foi transferido para o sistema pré-motor lateral ou que também há algum comprometimento neste sistema.

4. Mito: O facto de as pessoas com Gaguez experimentarem melhorias na fluência em situações de alteração de feedback auditivo (atraso ou alteração de frequência) prova que a Gaguez é psicológica, porque não haveria nenhuma razão para a Gaguez melhorar sob estas condições. 

Realidade: Quando o feedback auditivo é modificado, a fala não é processada de forma automática pelo cérebro. Nestes casos, o cerebêlo entra em ação, porque se torna necessário extrair pistas acústicas do som externo para temporalizar a fala. É o mesmo efeito que ocorre com a leitura em coro e com o falar ao ritmo de um metrónomo, que também melhoram a Gaguez de muitas pessoas.


5. Mito: Geralmente tenho dificuldade para dizer o meu nome e o meu número de telefone quando as pessoas os solicitam. No entanto, consigo dizê-los fluentemente se estou sozinho. Isso é uma evidência de que a Gaguez é psicológica. 

Realidade: Este efeito pode ser explicado por três fatores. Primeiro, a Gaguez é um distúrbio de fala espontânea, isso quer dizer que ela tende a se manifestar com maior intensidade quando a fala é utilizada de maneira proposicional, isto é, quando a fala de facto tem finalidade prática. Falar uma expressão fora de contexto (quando se está sozinho, por exemplo) diminui a proposicionalidade daquela expressão, fazendo com que a Gaguez também diminua. Segundo, no contexto real, existe uma pressão de tempo natural, ou seja, a expressão deve ser proferida no tempo adequado. Lembrando que a dificuldade de temporalização é justamente a maior dificuldade das pessoas que gaguejam, não é de espantar que a dificuldade aumente quando a pressão do tempo está presente. Terceiro, se a pessoa reagir negativamente frente à antecipação da ocorrência da Gaguez, a Gaguez também terá maior probabilidade de ocorrer devido à ativação da resposta de congelamento, que faz com que o corpo tenda a paralisar, alterando assim a produção da fala. É bom lembrar que muitos outros distúrbios oscilam de acordo com a situação (por exemplo: Síndrome de Tourette, disfonia espasmódica, doença de Parkinson), não sendo esta uma característica exclusiva da Gaguez.

6. Mito: Se eu não gaguejasse, a minha vida seria perfeita e eu conseguiria realizar todos os meus sonhos. 

Realidade: A Gaguez de origem hereditária parece envolver níveis elevados do neurotransmissor dopamina e um funcionamento atípico de receptores dopaminérgicos em determinadas áreas do cérebro. O excesso de atividade dopaminérgica está relacionado com dificuldades na automatização de movimentos (como os de fala, gerando a Gaguez), mas também está relacionado a um maior desempenho intelectual, maior capacidade de atenção e menor tendência à hiperatividade e impulsividade. A Gaguez por lesão neurológica envolve dano físico ou bioquímico aos núcleos da base, estando relacionada a uma menor capacidade de atenção e maior tendência à hiperatividade e impulsividade. Portanto, se não gaguejasse, não seria quem é; a sua vida e os seus problemas seriam outros.

7. Mito: Pessoas que gaguejam são menos inteligentes. 

Realidade: Não há relação de causa ou consequência entre Gaguez e inteligência, ou seja, não é a falta de inteligência que causa a Gaguez, nem a Gaguez torna a pessoa menos inteligente. Algumas pessoas com Gaguez optam por expressar menos as suas opiniões oralmente; eventualmente esta atitude pode dar a impressão ao interlocutor de que a pessoa é menos inteligente, mas geralmente não é o caso.

8. Mito: A Gaguez está mais presente em sociedades que estimulam a competição e que cobram melhor desempenho do indivíduo. 

Realidade: A Gaguez é um distúrbio que parece afetar igualmente todas as classes sociais, etnias, sociedades e culturas - desde comunidades indígenas da América do Sul ou do Norte, até executivos de Tóquio e Wall Street.

9. Mito: Pode-se pegar Gaguez por imitação ou por ouvir uma outra pessoa que gagueja. 

Realidade: Ninguém pode pegar Gaguez. Se fosse assim, todas as pessoas que convivessem com alguém que gagueja, gaguejariam também, mas isso realmente não acontece. Além disso, dizer a uma pessoa que gagueja que ela aprendeu a gaguejar por imitação significa rebaixá-la e humilhá-la: com tantas características favoráveis para imitar, por que escolheria a Gaguez, que lhe seria prejudicial e traria desvantagens?

10. Mito: Um susto pode causar a Gaguez. 

Realidade: Se sustos causassem Gaguez, então provavelmente todas as pessoas gaguejariam, porque, afinal, quem nunca apanhou um susto?

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