“Há sete anos, numa tentativa
desesperada de curar o meu problema crónico de fala, os meus pais gastaram a sua
modesta poupança enviando-me para uma escola de pessoas com gaguez.
Infelizmente, para desânimo deles e meus sentimentos mais profundos de
desespero, foi mais uma tentativa inútil. Quando eu voltava muito angustiado
para casa, no comboio, um cobrador, muito amável, parou em frente ao meu
assento e perguntou qual o meu destino. Eu abri bem minha boca para dizer a palavra
bem treinada “Detroit”, mas tudo o que saiu foi uma série de murmúrios. Puxei os
meus músculos abdominais o bastante para quebrar a terrível contração na minha
garganta, e não consegui dizer nada, foi silêncio total. Por fim, o cobrador
olhou-me bem através dos seus óculos bifocal, abanou a sua cabeça e com um leve
sorriso disse: “Bem, rapaz, fale ou vá como frete”.
O
cobrador tinha-se deslocado pelo corredor do oscilante vagão de passageiros,
antes de me encontrar e despejar tudo aquilo em mim. Olhando pela janela o
passar rápido da paisagem, através de uma neblina de lágrimas, causada pela
raiva e frustração, eu sentia os olhares disfarçados dos passageiros que
estavam próximos. Um rubor de constrangimento invadiu o meu pescoço e o rosto e
a minha cabeça latejava de desespero. Muito tempo depois, eu ainda me lembrava
do comentário do cobrador. Durante anos, eu me lembrei com muito sofrimento
daquela e de outras feridas da gaguez e alimentei a minha raiva, sonhando com o
dia em que eu consertaria todos aqueles incorrigíveis erros. Mas, no fim, o seu
comentário espirituoso mudou a minha vida. O cobrador, incrivelmente, estava
certo.” (EMERICK)




1 comentários:
Mais do que tudo, ilustra bem o constante drama que a pessoa vive: podia perfeitamente rir-se da situação e em jeito de desculpa referir que é gago e às vezes encalha. Mas não, a importância e seriedade dada ao acto de "falhar" é exagerada. Claro que já tive desse lado e sei o sentimento de frustração, mas acima de tudo é importante não nos levarmos tão a sério.
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