Uma experiência memorável

quinta-feira, 22 de novembro de 2012 1 comentários

“Há sete anos, numa tentativa desesperada de curar o meu problema crónico de fala, os meus pais gastaram a sua modesta poupança enviando-me para uma escola de pessoas com gaguez. Infelizmente, para desânimo deles e meus sentimentos mais profundos de desespero, foi mais uma tentativa inútil. Quando eu voltava muito angustiado para casa, no comboio, um cobrador, muito amável, parou em frente ao meu assento e perguntou qual o meu destino. Eu abri bem minha boca para dizer a palavra bem treinada “Detroit”, mas tudo o que saiu foi uma série de murmúrios. Puxei os meus músculos abdominais o bastante para quebrar a terrível contração na minha garganta, e não consegui dizer nada, foi silêncio total. Por fim, o cobrador olhou-me bem através dos seus óculos bifocal, abanou a sua cabeça e com um leve sorriso disse: “Bem, rapaz, fale ou vá como frete”.

O cobrador tinha-se deslocado pelo corredor do oscilante vagão de passageiros, antes de me encontrar e despejar tudo aquilo em mim. Olhando pela janela o passar rápido da paisagem, através de uma neblina de lágrimas, causada pela raiva e frustração, eu sentia os olhares disfarçados dos passageiros que estavam próximos. Um rubor de constrangimento invadiu o meu pescoço e o rosto e a minha cabeça latejava de desespero. Muito tempo depois, eu ainda me lembrava do comentário do cobrador. Durante anos, eu me lembrei com muito sofrimento daquela e de outras feridas da gaguez e alimentei a minha raiva, sonhando com o dia em que eu consertaria todos aqueles incorrigíveis erros. Mas, no fim, o seu comentário espirituoso mudou a minha vida. O cobrador, incrivelmente, estava certo.” (EMERICK)

1 comentários:

  • Anónimo disse...

    Mais do que tudo, ilustra bem o constante drama que a pessoa vive: podia perfeitamente rir-se da situação e em jeito de desculpa referir que é gago e às vezes encalha. Mas não, a importância e seriedade dada ao acto de "falhar" é exagerada. Claro que já tive desse lado e sei o sentimento de frustração, mas acima de tudo é importante não nos levarmos tão a sério.

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